25.2.08

Dança das Cadeiras

Uma nova instalação de Joseph Kosuth - autor de One and Three Chairs (1965), obra na qual o artista discute a questão do "correlativo-objetivo", isto é, o referente dos conceitos (imagem acima) - está na fachada de La Casa Encendida, um centro social e cultural em Madri. A nova instalação consiste de uma série de luminosos com excertos de autores latino-americanos como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Juan Carlos Onetti. Sobre a primeira obra, qual correlativo-objetivo Kosuth escolheria para a cadeira-parasita de Simone Harbert (imagem abaixo)? Para a segunda, há um bom texto analítico de Laura Revuelta no ABCD las artes y las letras (dica de Magali Melleu).

24.2.08

Japan Pop Show

No próximo dia primeiro de março será inaugurada no YCAM (Yamaguchi Center for Arts and Media) a exposição datamatics, uma série de quatro instalações de Ryoji Ikeda, compositor japonês que começou sua carreira de DJ em 1990. O músico, que pesquisa minuciosamente o campo do ultra-som e os efeitos das freqüências sonoras sobre a percepção humana, é conhecido por faixas com títulos singulares, como "0000000100". Mas é também um artista visual e, nessa exposição, os visitantes poderão constatar suas experiências com data art ("datamatics [ver 2.0]", concerto audiovisual), aleatoriedade ("data.tron", imagem acima), impressão microscópica em filmes de 35mm ("datafilm [no1-a]") e códigos de barras ("test pattern [no1]", imagem abaixo).

Dicas Duca

Vale muito à pena dar uma olhada no Top Ten do Raqs Media (coletivo de Nova Déli formado por Jeebesh Bagchi, Monica Narula e Shuddhabrata Sengupta) no site da Artforum. O grupo, presente em 2002 na primeira edição de Emoção Art.ficial com a obra "Location: Simultaneity, Time and E/motion", dá dicas finíssimas de artistas (Chen Zhen), filmes ("Subarnarekha"), livros ("The Travels of Ibn Battuta") e até quadrinhos ("The Invisibles", de Grant Morrison). Com relação ao número 7 da lista, o Itaulab se intromete com um 7,5: a promissora webcomics em capítulos FreakAngels (de Warren Ellis e Paul Duffield, imagem abaixo).

17.2.08

Remontagens

Talvez a primeira “wearable art” que se tem notícia, o quimono tecnológico “Electric Dress” (1957), de Atsuko Tanaka (abaixo) dialoga com “Fatherboard, the Superavatar” (2007), de Luigi Pagliarini (acima), um avatar que “escapou” do mundo virtual para conviver com os humanos (será que ele vai nos convidar para comer parafusos ao molho de óleo diesel, como queriam os futuristas?). Apesar de estar fora do contexto da negação (Robert Rauschenberg apagando De Kooning e irmãos Chapman distorcendo Goya), dá para citar um trecho de Teixeira Coelho no livro Coleção Itaú Contemporâneo: Para sorte do sistema da arte, que com isso se reforça, a memória das coisas da arte é fraca e novos escândalos se produzem a cada nova ação de negação da arte, por mais análoga que seja a alguma negação anterior.

UPDATE (18/02): incluir na negação o que fizeram com o condottieri de Urbino na última capa da revista Piauí. Sobre as duas obras de wearable art, substituir no texto de Teixeira a palavra "negação" por "afirmação".

12.2.08

Rádio-Chapéu

Ricardo Nascimento (ganhador de Rumos - Arte Cibernética) e Ebru Kurbak apresentarão o projeto "Taiknam Hat" no Social Fabrics: Wearable + Media + Interconnectivity, evento de wearable art que acontece em Dallas, Texas, no dia 22 de fevereiro. O projeto consiste num chapéu cinético que reage ao meio ambiente de acordo com os sinais radiofônicos de onda média.

30.1.08

Troféus Robóticos

O mais recente trabalho de France Cadet, morando agora em Marselha, é uma série de 11 troféus de caça montados com os mesmos cachorros robóticos de Dog[LAB]01. Como em projetos anteriores, os bichos respondem aos movimentos do público (acima o leopardo e, embaixo, o impala).

23.1.08

Novo Realismo

A ficção científica (FC) é associada a um tipo de subliteratura com o argumento de que se produz muita porcaria dentro do gênero. Mas grande parte (algo em torno de 90%) de qualquer produção literária pode ser considerada porcaria segundo a Lei de Sturgeon, que, por sinal, foi assim chamada em homenagem ao famoso escritor de FC, Theodore Sturgeon. Pode-se pressentir uma retomada do gênero depois de ler um artigo na Wired, no qual o autor detecta uma saturação do realismo e que a FC seria a única alternativa para possíveis alterações da realidade. Foi recentemente lançado o ótimo io9, um blog coletivo de FC que fornece dicas essenciais para quem quer se atualizar sobre tudo o que acontece em torno do gênero. Confira também esse teatro de bonecos steampunk (cyberpunk vitoriano) e "My Little Golden Book About Zogg", uma paródia futurista e ácida em cima do famoso livro de catecismo infantil "My Little Golden Book About God".
UPDATE (24/01): Simon Sellars, do blog Ballardian, criticou negativamente o artigo de Clive Thompson para a Wired. O argumento dele é que nesse momento em que tornou-se impossível fazer qualquer previsão a respeito do futuro da humanidade, um texto fazendo encômios à FC não se aplica. Ele realmente não entende o motivo de todo esse entusiasmo geekazoid. Ele tem alguma razão. A naturalização de nossa própria cultura tende para a negação da particularidade de outras. As outras culturas são, dessa forma, "naturalizadas" em sentido oposto, são remetidas à natureza como anti-cultura (obrigado ao pessoal do Projeto AmaZone por esse esclarecimento). De qualquer forma, a provocação de Thompson começa a fazer sentido quando notamos que os autores atuais de FC não estão pensando EXATAMENTE no futuro. Diz-se que o melhor futurista é aquele que prevê o presente...
UPDATE (2/02): A garrafa pet gigante do Srur saiu no io9!

11.1.08

Grande Vazio

Duas galerias norte-americanas – Art Interactive e AXIOM Gallery – juntaram esforços para montar a exposição Some Sort of Uncertainty, com curadoria da colombiana Adriana Rios. Segundo um trecho do briefing, a exposição “convida os visitantes a reconsiderar suas expectativas sobre uma exposição de arte apresentada em um espaço aparentemente vazio”. Sob condições (mais proposta, conceito, mecanismos, momento histórico, leitmotif, etc.) diferentes, esse filme será também mostrado em breve num famoso prédio situado no Ibirapuera, São Paulo.

10.1.08

Eu, Ele, Tu

Bom ano novo, leitores e leitoras! O primeiro post de 2008 tem relação com a nossa singela campanha ARTE TECNOLÓGICA TAMBÉM É ARTE CONTEMPORÂNEA e foi inspirada num post do blog Networked_Performance que aponta para um texto de 2005 de Jacob Lillemose. A epígrafe, de Steve Dietz, já indica o que vem pela frente: Curating new media is just like curating any contemporary art, only different. Vale à pena ler na íntegra. O que o autor sugere, em suma, é que o elo entre arte contemporânea e arte tecnológica seja efetuado por meio do conceito de “imaterialidade”. Sim, há que se encontrar essa terceira via, ou, a segunda pessoa, pegando uma carona na ótima conceituação de Eduardo Viveiros de Castro sobre a unidade transespecífica do espírito: "Seguindo a analogia com a série pronominal (Benveniste 1966a,b), vê-se que, entre o eu reflexivo da cultura (gerador do conceito de alma ou espírito) e o ele impessoal da natureza (marcador da relação com a alteridade corpórea), há uma posição faltante, a do tu, a segunda pessoa, ou o outro tomado como outro sujeito, cujo ponto de vista serve de eco latente ao do eu" (in A Inconstância da Alma Selvagem). A imagem que ilustra o texto é do trabalho First Person Movements, de Andrei R. Thomaz.

17.12.07

SimCity For Real

Digno de nota esse programa de planejamento procedural de cidades (notem o formato radial desta especificamente). O joguinho de Will Wright empalidece...

30.11.07

Vida (Artificial e Natural)

Os vencedores do prêmio Olympus BioScapes (concurso de microscopia óptica digital) e do prêmio VIDA 10.0 (concurso de a-life da Fundación Telefónica) já estão sendo soprados aos quatro ventos...

28.11.07

Realismo Paralelo

Ao final de um texto sobre arte generativa, a supermoderna Susanne Jaschko conclui: For the same reason (…) generative art does not play a larger role in the contemporary art discourse, which has just started to slowly rediscover the value of the retinal - for instance through Gerhard Richter’s paintings. Compared to those generative art offers much more complexity and a sensory experience that is theoretically infinite. Apesar de ser tentador desenvolver um comentário sobre o belo e o sublime na “arte tecnológica” (daqui em diante a expressão virá em aspas para frisar seu caráter contestado e para motivar a campanha ARTE TECNOLÓGICA TAMBÉM É ARTE CONTEMPORÂNEA), o que interessa no momento é a citação de Richter e, por extensão, da pintura como um todo. Não é de hoje que incautos apontam para a morte da pintura e isso está causando certo desconforto existencial. Coincidentemente, o batalhador Roberto Rugiero, da Galeria Brasiliana, entrou em contato conosco hoje para falar sobre Ranchinho, falecido pintor brasileiro que tinha vários handicaps, físicos e mentais. Além das conexões óbvias com o Bispo do Rosário, há uma conexão livre com o trabalho de Henry Darger, um falecido faxineiro de Chicago que virou um dos ícones dos outsiders. Nas palavras de Rugiero: o interessante de Ranchinho é que ele fica dentro do realismo, um realismo paralelo. Seus trabalhos sobre o lobisomem são impressionantes. Será que ele viu algum? Incrível, pois têm a descrição exata dos que afirmam tê-lo visto: a parte traseira mais elevada, as longas orelhas, que produzem o flap-flap, denunciador de sua presença, a língua sangrenta. Seus gatos são na verdade auto-retratos. Seus trens são flagrantes do Absoluto. Em suma, o trabalho de Ranchinho merece uma exposição individual. E urgente!

18.11.07

Vertigo

Você sabe quem eram os vorticistas?

16.11.07

Total

Imperdível e emocionante a exposição Kurt Schwitters 1887-1948 | O Artista Merz, na Pinacoteca do Estado até o dia 2 de dezembro. Schwitters foi um artista total e (talvez) o único a levar em conta a idéia de hilomorfismo, que conceitualmente identifica a substância com a forma. Ele até criou um movimento próprio, o Merz, um fragmento da palavra alemã para “comércio” que "por acaso" surgiu em uma de suas colagens. Há um pouco de tudo na exposição, como os retratos que fazia para ganhar a vida e até uma réplica do Merzbau, um ambiente que materializa o conceito construtivista de envolvimento total (e também o wagneriano de obra de arte total). Será que o Henrique Oliveira viu o Merzbau? Provavelmente, sim...

15.11.07

Pintar o Trenzinho

A velha equação de como inserir obras de graffiti em galerias (e como fazê-las entrar em instâncias de "commoditização") foi resolvida pela Ghetto Mansion, em Los Angeles. Uma solução para lá de simples, mas incrivelmente bem bolada. Como a Choque Cultural não pensou nisso antes?

13.11.07

Labirintite Digital

Idéia para uma possível (e idealizada) parceria: imagine juntar o artista Henrique Oliveira - presente na exposição Futuro do Presente, no Itaú Cultural - e o grupo Futurefarmers? Mais exatamente, imagine-os construindo um túnel de madeira deteriorada derivado do projeto Fingerprint Maze, uma instalação que gera labirintos 3D a partir de impressões digitais escaneadas...

8.11.07

Pop Surrealismo

Qual é a única diferença entre Jim Woodring (acima) e Roy Lichtenstein (abaixo)? Ora, a palavra surrealismo!

31.10.07

Rio or bust!

Oi Futuro e poesia visual. Thomas Wohlahrt (Zebra Poetry Film Festival / Literaturwerkstatt Berlin), André Vallias, Adolfo Montejo Navas...

30.10.07

Efeito Geleca

Dizem que arquitetura é escultura musical, mas há quem faça esculturas musicais propriamente ditas. É o caso da performance White Lives on Speaker, apresentada no Ars Electronica desse ano. Elementos básicos: amido de milho, speaker e tons de 120hz produzidos por softwares do tipo ToneGen. Sem dúvida há padrões emergentes, mas nada que não se possa ver ao bater claras em neve, por exemplo. Um efeito semelhante - sem pretensões artísticas - foi registrado na categoria “fluidos não-newtonianos” no ótimo Lucid Movement, repositório de vídeos acelerados e em câmera lenta (imagem abaixo).

24.10.07

Brinquedos Densos

O trabalho do Paramodel (nome da dupla formada pelos artistas japoneses Yasuhiko Hayashi e Yusuke Nakano) e No - Signal (? Help) (imagem abaixo), do artista coreano Kyung-Ho Lee, não inspiram o lúdico, apesar de usarem brinquedos de criança. O resultado é intimista, particularista e introspectivo. Os trilhos da TOMY do Paramodel são instalados sobre as mais diversas superfícies (inclusive as aquáticas) e configuram um trajeto paradoxal, que vai de nenhum lugar a lugar nenhum. A montanha-russa de Lee traz à tona lembranças vertiginosas do artista, as quais são projetadas de forma fragmentada ao lado da instalação. Definitivamente, o mal estar causado por sendas não funcionais e histórias pessoais mal resolvidas são temas densos demais para os infantes.

17.10.07

Meda!

É impressão, ou um clima de paranóia aninhou-se em corações e mentes de artistas e pensadores contemporâneos? O assunto da privacidade e vigilância voltou à pauta do dia, vide o tema do Ars Electronica desse ano, evento no qual o Itaulab esteve presente in loco. Pergunta Gerfried Stocker, um dos diretores, no texto de introdução do catálogo: o que temos à disposição para contra-atacar as tecnologias de vigilância e controle? Uma possível resposta: as mesmas ferramentas aplicadas pelos supostos Big Brothers de plantão. Brian Holmes, em texto recente, intensifica a paranóia ao colocar a cibernética como uma das ferramentas com as quais o capitalismo selvagem invade e controla nossas vidas. Mas até o asfalto de Washington, DC sabe que a ciência e a tecnologia são amorais por natureza, e que seus usos são definidos por humanos. Por mais assustador que seja o cenário, é pouco provável (ao menos em curto prazo) que uma raça de andróides domine os humanos e instaure um verdadeiro "cibercapitalismo", nas próprias palavras de Holmes. Se a estratégia do capitalismo é chocar seu próprio ovo de serpente - na forma de uma rede mundial de computadores descentralizada e uma diversidade de antropologias antropofágicas - então como explicar a paranóia generalizada? Talvez porque esteja em nossos genes o código de um medo absoluto. Não que visões mais otimistas eximam-nos de uma postura crítica e combativa. O que está bem longe de uma rendição incondicional ou um medo primevo.

2.10.07

Hibernator

Talvez não seja mais novidade, mas Rhizome.org postou algo sobre Destino, a animação resultante da parceria entre Walt Disney e Salvador Dali, que acabou não decolando por simples descrédito. Entretanto, há algo bem mais interessante no horizonte: Prince of the Petrified Forest. O filme – fruto da parceria entre London Fieldworks (coletivo britânico formado pela dupla Bruce Gilchrist e Jo Joelson) e o escritor Steve Beard (o texto é puro Thomas Pynchon) – tem como personagem principal o boneco animatrônico de Walt Disney e uma série de stills que remetem ao famoso desenho animado Bambi. O que em princípio seria um ingênuo plano-seqüência transforma-se numa avalanche hipnótica envolvendo substâncias psicoativas, criogenia ficcional, cultura pop americana distorcida e demonismo indígena. O boneco de Walt Disney, uma sátira ao mito de seu congelamento, existe de verdade e foi apresentado no Beaconsfield Contemporary Arts, em Londres. Infelizmente, o vídeo não está na Internet (ainda!).

5.9.07

Vida!

Artistas brasileiros estão sendo convocados, pela Fundación Telefónica, para participarem da décima edição do concurso de arte e vida artificial, VIDA 10.0. O festival espanhol merece a atenção, principalmente pelo fato de o grande Rafael Lozano-Hemmer ser seu idealizador ("Hasta cierto punto, si no hay gente, la obra no existe"). As inscrições vão de 17 de setembro a 22 de outubro. Mais informações (também em português) no site da fundação.

23.8.07

Clássicos Pictóricos da Ficção Científica

Salad, de Till Nowak, uma homenagem a...

Vertumno, de Arcimboldo.

Klingons Crossing the Delaware, de Leo Lingas, uma homenagem a...

Washington Crossing the Delaware, de Emmanuel Leutze.

2.8.07

FHC na Abadia Virtual

FHC imerge na “Abadia Virtual”, apresentado na exposição Memória do Futuro. O produto do Itaulab é uma recriação detalhada do mosteiro de São Bento, recurso ideal para restauradores, arqueólogos e arquitetos. Em segundo plano, GAFBF, elemento do laboratório de novas mídias do Itaú Cultural.

30.7.07

Curto e Intenso

O inevitável aconteceu: a artista Jenny Holzer se apropriou do Twitter, uma mistura de SMS e blog coletivo. Algumas de suas últimas frases (como sempre, seminais): ENJOY YOURSELF BECAUSE YOU CAN'T CHANGE ANYTHING ANYWAY, WHEN SOMETHING TERRIBLE HAPPENS PEOPLE WAKE UP, BEING SURE OF YOURSELF MEANS YOU'RE A FOOL, SPENDING TOO MUCH TIME ON SELF-IMPROVEMENT IS ANTISOCIAL, DISORGANIZATION IS A KIND OF ANESTHESIA, CONFUSING YOURSELF IS A WAY TO STAY HONEST...

24.7.07

Dois Famosos Games com Roupagens Diferentes

No que tange à reciclagem de videogames antigos, nem tudo se resume à portabilidade (reescrever o programa em uma linguagem mais atual). Vide o nerd que realizou a façanha de fazer dois computadores jogarem Pong: o primeiro roda o jogo e controla uma raquete; e o segundo enxerga através de uma câmera e controla a outra. Num caso mais biotecnológico, um Pac-Man diferente, em que grilos de verdade controlam o movimento dos fantasminhas.

19.7.07

A Onça e o Espelho

O Espaço Memória do Futuro no Second Life está apresentando, em seu telão hiperscope, as duas primeiras partes de i.Mirror, trabalho que a artista chinesa Cao Fei elaborou especialmente para a Bienal de Veneza. O próprio avatar da artista – China Tracy – atua numa espécie de machinima (cinematografia baseada em games) no Second Life, encontrando-se com outros avatares e filosofando sobre os efeitos da representação dentro de um universo imaterial. O trabalho virtual de Fei faz parte de uma instalação montada no pavilhão Arsenale, onde ela levantou uma estrutura inflável branca que tem sido usada como espaço de chill-out. O trabalho de Fei ativa uma série de interpretações e pensamentos "antropológicos" e isso vem a calhar após a palestra de Eduardo Viveiros de Castro no Simpósio Memória do Futuro, em que ele explicou a sua versão de tradução e relativismo, chamada de perspectivismo ameríndio. Em temos gerais: imagine-se vendo uma onça bebendo o sangue de uma presa abatida. Para nós, humanos, a onça bebe sangue; mas para a onça, é cerveja. A onça encara o mundo como os humanos o fazem. Portanto, haveria uma unidade cultural, uma alma do mundo, em contraponto a uma natureza múltipla, composta de diversos agentes corporais, a única via de diferenciação. Nos universos virtuais esse conceito é ampliado por meio de uma estranha metalinguagem: a sensação da multiplicidade dentro da natureza virtual é mais intensa e a variação dos corpos etéreos que o atravessam é mais nítida. A cultura que a sustenta, por outro lado, gera uma unicidade mais forte. A celebração da diversidade "corporal" e de uma cultura unívoca: parece ser essa a mensagem de China Tracy, ou melhor, Cao Fei.

7.7.07

Crise = Oportunidade

Ontem aconteceu a terceira mesa do Simpósio Memória do Futuro com Eduardo Viveiros de Castro e Julian Dibbell. Bem, não com o corpo do último, mas sim seu avatar. O que não deixa de ter sentido num evento em que a virtualização é seu mote e seu princípio motor. O etnólogo digital teve problemas com o visto (senhores embaixadores: vamos acabar com a guerra da reciprocidade?) e não conseguiu embarcar a tempo para o Brasil. A equipe do Itaú Cultural envolvida com o projeto teve um princípio de choro e, em seguida, uma postura típica de Cassandra. No dia seguinte, o espírito de Cândido, o otimista, tomou conta de todos e um mutirão foi formado para se criar uma solução. Por que não colocar o avatar de Dibbell no Second Life (que, como é possível verificar na imagem acima, parece-se muito com ele) para falar ao vivo via Skype? A equipe de produção mobilizou-se para construir uma estrutura que, pelo que se tem notícia, apenas Philip Rosedale, CEO da Linden, consegue realizar. Dibbell teve o apoio de Falk Bergman, o avatar proprietário de uma livraria no SL que, além de comercializar livros reais, possui em seus jardins lindas cerejeiras e um telão de data show para apresentações. Foi nesse telão que Dibbel passou sua mensagem: a teoria do ludocapitalismo e sua recente experiência na China com os “garimpeiros”, jovens que vivem da venda de objetos virtuais, como tapetes de pele de urso, etc (ver post abaixo). Eduardo Viveiros de Castro, que tem tido problemas com o translado físico de seu corpo devido ao motim dos controladores de vôo e ao infame overbooking das companhias aéreas, ficou atônito. A experiência foi tão bem sucedida que o palestrante ausente conseguiu inclusive responder às perguntas da platéia. E por que não tivemos essa idéia antes?, perguntamos a ele. Because it's lunacy?, foi a sua pronta resposta.
UPDATE (17:52): A versão do Julian sobre esse ocorrido.
UPDATE (22:02): Aquela expressão citada por Julian ao final de sua palestra é Uncanny Valley, basicamente, um robô em forma humana causa menos empatia emocional que um personagem de desenho animado (realista ou não).
UPDATE (10/07): Hoje a Folha publicou a história (entrevista com Dibbell e Guest). Talvez pudessem ter explorado mais a presença virtual de Julian no evento, mas já está valendo.

29.6.07

Continuum Perpétuo


Esse blog está meio parado ultimamente por um bom motivo: a preparação do evento Memória do Futuro, que comemora os 10 anos de arte e tecnologia no Itaú Cultural. Na base do pinga-gotas, informações e curiosidades serão inseridas aqui. Há uma expectativa especial em torno do simpósio, que contará com a participação de figuras emblemáticas. Julian Dibbell, por exemplo. A revista do New York Times publicou na semana passada um longo artigo dele sobre os "garimpos" da China, lugares que contratam jogadores de videogame para produzir a moeda do jogo, que é trocada por dinheiro real por gente de todo o planeta. Sem proselitismos: é imperdível.

Contextualizando o simpósio: Seja por motivos intuitivos ou psicológicos, o tempo sempre foi representado linear e cumulativamente ao longo da história. Destarte, passado, presente e futuro formam uma sucessão de momentos indivisíveis. Depois de Minkowski e Einstein, tempo e espaço uniram-se numa única entidade chamada de continuum – e os segmentos temporais, antes progressivos, se juntaram no presente absoluto. Tempos interligados e espaços comuns compõem um cenário no qual o instante é comprimido e as fronteiras nacionais são substituídas por espaços simbólicos. Ambientes virtuais, redes sociais, autorias colaborativas e sistemas complexos deságuam no continuum do novo milênio.

No dia 4 de Julho, o simpósio inicia-se com o key note Tempo e espaço, uma explanação do astrônomo brasileiro Ronaldo Rogério de Freitas Mourão acerca do continuum, conceito oriundo da física que se refere ao composto espaço-temporal e ao princípio do evento.

No dia 5 de Julho, a mesa Propriedades e espaços comunais vai refletir sobre o continuum do conhecimento. A lei de propriedade intelectual, tal como está, interrompe e evolução da conhecimento para assegurar direitos individuais. Qual é o sentido de se proibir a recomposição de conteúdos candidatos ao rol de bens simbólicos universais? A cultura, mais do que nunca, pede passagem; o direito de passagem (com Ronaldo Lemos e Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses).

No dia 6 de Julho, o supracitado Dibbell, em conjunto com Eduardo Viveiros de Castro, fala sobre Universos e metaversos, uma reflexão sobre o continuum cultural (apud Ralph Linton). A cultura como uma espécie de alma do mundo, comum a todos os seres. É possível reunir a tendência multiculturalista da cultura ocidental com o multinaturalismo dos povos indígenas das Américas? Talvez isso já esteja ocorrendo dentro dos espaços múltiplos e interativos dos universos virtuais...

E, para fechar, no dia 7 de Julho, a mesa Controle e autonomia discutirá sobre o continuum desses dois elementos que, aparentemente, formam um oxímoro, mas que estão mais interligados do que nunca. A cibernética é a disciplina que estuda os sistemas – ou organismos – complexos e adaptativos. Rebate a incompatibilidade entre homens e máquinas, não os igualando, mas colocando-os sob o mesmo prisma. O que torna possível a percepção de sistemas complexos no reino animal, no mundo digital e, não menos importante, no campo político. Participam da mesa o ciberneticista brasileiro Isaac Epstein e a dupla Enrique Rivera e Catalina Holmgren, dois pesquisadores chilenos ligados ao instituto alemão ZKM e autores do projeto CyberSyn, que reconstitui por meio de uma instalação documental interativa o projeto de governo cibernético impulsionado por Salvador Allende e concebida pelo ciberneticista britânico Stafford Beer.

Feriado constitucionalista? Pense duas vezes...

16.6.07

Salvador or Bust!


No próximo dia 20, o Itaulab vai estar em Salvador, a convite do Goethe-Institut Salvador e da Universidade Federal da Bahia, para participar do ciclo de debates CIBERCULTURA REMIX – CULTURA LIVRE NO SÉCULO XXI. Será proferida uma palestra intitulada "As Duas Sementes de Dragão", cujo resumo é: Pensadores de povos localizados na periferia dos mercados globais substituíram o discurso da dominação colonialista pelo discurso de dominação cultural. Não mais o capitalismo procura por novas forças de produção e mercados emergentes situados nas bordas, mas por recipientes de caldos culturais imperativos. A perspectiva está lançada. Mas resta-nos acatar ou rejeitar a imposição? Ou haveria um tertium quid para o problema? O texto a seguir é calcado na premissa de que a chamada cultura hegemônica ocidental gerou dois singulares rebentos, ou melhor, duas sementes de dragão: a Internet...

...e a Antropologia.

7.6.07

Para a Sua Informação


Os leitores devem ter notado o sumiço da revista CIBERCULTURA do novo site do Itaú Cultural. Há uma explicação científica para tal ocorrido, fundamentada no espírito de época. No próximo dia 19, o Itaulab lança a nova Enciclopédia de Arte e Tecnologia que reúne dois produtos: o Panorama de Arte e Tecnologia do Itaú Cultural e o veículo oficial do Itaulab. A nova enciclopédia é, portanto, um produto híbrido, mas que oferece novas funções para a participação do público e a formação de redes sociais.

Desde o iluminismo, as enciclopédias vêem exercendo um papel crítico na formação cultural da humanidade. Com o advento da Web 2.0, começa a configurar-se a tendência para dotar as enciclopédias de um modelo estrutural capaz de conglomerar as informações e, de quebra, descentralizar a elaboração de conteúdos. Os novos modelos, exemplificados na hoje respeitada Wikipedia, visam criar um ambiente colaborativo e favorecer a flutuação infinita das leituras possíveis, quer irradiando e cruzando os temas por elas tratados, quer reforçando o trabalho de indexação. Poderíamos afirmar que a os enciclopedistas deram lugar aos "wikipedistas"?

No dia 19, na sala vermelha do Instituto, essa pergunta será respondida por Lúcia Leão (dispensa apresentações) e Luis Henrique Fagundes, um dos responsáveis pela plataforma TikiWiki, a base da qual foi construída a nova enciclopédia. A dupla vai participar do debate que marcará o ponto de partida dessa nova aventura. Que Diderot e d'Alembert nos abençoem!

2.6.07

Ultima Peraltice de Hirst?

Talvez seja a magnum opus de Damien Hirst... “For the Love of God” é um crânio humano incrustado de diamantes no valor de cem milhões de dólares. O queridinho dos YBA foi longe demais dessa vez? Ou é o encontro glorioso entre arqueologia e arte contemporânea?

20.5.07

O Monstro de Seul

O filme “O Predador”, que está em cartaz, é imperdível por diversos motivos. Em primeiro lugar, o diretor sul-coreano Bong Joon-ho foi chamado de “Gogol de Seul” pela revista Artforum de janeiro. O monstro do filme pode até lembrar um pouco o do “Alien, o Oitavo Passageiro”, mas tem em abundância características clássicas, menos para Gojira e mais para o trabalho de Ray Harryhausen. Terceiro, sublinha a narrativa principal um sofisticado discurso político contra a imposição de “culturas” e “sociologias”. Por fim: a direção de arte e a trilha sonora (a direção geral, em suma) são brilhantes.

15.5.07

Universos e Metaversos


Há certas observações que não querem calar sobre o Second Life, o universo massivo que virou hype absoluto. A falta de criatividade arquitetônica, por exemplo, é uma limitação do programa interno de construção, o builder, "um programa primitivo (...), que possui apenas formas volumétricas básicas, como cubos, prismas e cones", segundo o designer uruguaio Fernando Vasquez (LINK, 14/05). Deve ser por esse motivo que largas porções do SL estão se transformando em verdadeiras "cidades fantasmas". Isso já foi martelado, inclusive nesse blog. Há outras considerações, mais antropológicas, a serem analisadas. Não é incrível que um universo virtual, onde as regras da sociedade real estão a anos luz de distância, reflita – de forma ampliada, suspeita-se – as mesmas normas de convivência? É o caso do "efeito elevador", por exemplo. Não são muito bem vistas e recebidas aproximações um tanto quanto excessivas, contatos visuais incisivos ou mesmo toques corporais não solicitados. É muito ocidental esse tipo de comportamento. Eurocêntrico, diríamos. O antropólogo italiano Massimo Canevacci – que passou ontem pelo Itaulab e gentilmente nos forneceu um texto, para a honra de CIBERCULTURA – tem o projeto de realizar missões etnológicas dentro do SL. Ele pretende criar um avatar chamado Malinowski II para realizar tal tarefa. Nada mais apropriado, já que o famoso antropólogo polonês era um funcionalista, isto é, acreditava que a práxis determina a cultura, e não vice-versa. Não apenas isso: para o funcionalismo, todas as ações, práticas e comportamentos humanos são determinados por impulsos biológicos básicos, justificados por interesses puramente econômicos. A proposta de Canevacci é deveras interessante. O produto não se tornou amplamente comoditizado? Mas fazemos uma contraproposta: não seria melhor criar o avatar Sahlins II? Ou um Viveiros II? Eles, com certeza, inverteriam a lógica da cultura e da razão prática. Colocariam um pouco mais de humanidade e subjetividade no Second Life. Independente das questões arquitetônicas e antropológicas vale muito à pena prestar atenção para as decorrências deste universo (ou metaverso?). Em breve, um call for performances...

2.5.07

Espelho Seu

Um dos traumas da cultura ocidental são as apropriações de conceitos, idéias, etc. Uma imagem mental é algo que se pode cercear como uma propriedade física? Uma das soluções para esse problema é reinstalar a noção de sincronicidade para justificar as coincidências simbólicas que ocorrem em tempos e espaços diferentes.


O prólogo é para comentar sobre "A Invenção de Loren", peça da dramaturga e diretora Ana Roxo que estreou no espaço dos Satyros Dois, em São Paulo. Basicamente, o argumento é sobre uma empresa especializada em fornecer amigos imaginários para pessoas solitárias. Há um foco em mulheres virtuais, e um exemplo que vêm à cabeça é a Gazira Babeli. De qualquer modo, é absolutamente incrível a semelhança da dramaturgia com o projeto LOREN, THE TEXTUAL-WOMAN, de 1997. Não há uma acusação de plágio. Há apenas o desejo de entender a sincronicidade. Nada mais. Há também o desejo de comentar o fenômeno com a diretora. Ana Roxo: você está copiando (na acepção radioamadora)? Se sim, entre em contato, por favor.